Identidade: O Ambiente Escolar e sua Contribuição

O fato de que a criança passa a maior parte de seu dia dentro do ambiente escolar não é novo na atualidade, uma vez que o ritmo de vida acelerado exige mais tempo dos adultos e as crianças passam a frequentar creches e berçários de período integral. Sendo assim é fácil concluir a importância que esta instituição tem no papel de construção do repertório comportamental.

Entretanto tamanha responsabilidade não ficaria livre de problemáticas grandes. Deve-se levar em conta o fracasso escolar, os índices de repetência, as próprias relações entre estudantes e entre esses e os professores.

O Brasil apresenta um cenário precário no que diz respeito a esses fatores. Sabe-se que a qualidade de ensino – principalmente em periferias e comunidades de baixa renda – não supre os requisitos mínimos e há, de fato, um descaso perante os dados alarmantes que classificam o país como uma das piores nações participantes do PISA. A falta de incentivo, salários baixos e falta de limite dos alunos acabam por gerar nos professores comportamentos de esquiva, a elaboração de rotas de fuga e podem induzir a um controle coercitivo dentro da sala de aula. Este fator, evidentemente, produz consequências no comportamento dos alunos, que podem se tornar mais agressivos ou perder o interesse pelo aprendizado.

Voltando o olhar para a criança, o contato com aquilo que é diferente pode gerar problemas que muitas vezes não têm a atenção devida dos pais e professores. O Bullying pode ser considerado como um desses problemas e é não só ignorado por aqueles que são próximos à vítima, mas pela própria sociedade brasileira que tende a “americanizar” casos assim.

Bullying é – em inglês – um substantivo para o verbo bully, que significa praticar atos de violência, ameaçar ou forçar. Este comportamento pode aparecer por uma série de fatores que são, muitas vezes, frutos das mazelas sociais como o preconceito, seja este de gênero, racial, xenofóbico, entre outros.

Kurt Lewin explora a relação opressora entre grupos – maiorias e minorias psicológicas – e esta é reproduzida claramente em ambiente escolar. Nota-se que o agente do bullying, isto é, aquele que o pratica, o faz por ter aprendido este comportamento, uma vez que de alguma forma o mesmo foi reforçado. Há casos em que os próprios bullies são ex-vítimas de bullying em outros contextos sociais, isso acontece como uma forma de se esquivar das situações vivenciadas anteriormente. O comportamento de bullinar outra criança é reforçado negativamente, uma vez que evita que outras crianças voltem a atormentar a ex-vítima.

As consequências desse tipo de violência são grandes, tanto para o agressor quanto para a vítima, em diferentes graus e suas implicações na construção da identidade são diretas.

A agressão atrapalha a aprendizagem do aluno, afetando também o seu comportamento fora do âmbito escolar. As vítimas apresentam alguns sintomas, como: irritabilidade, depressão, falta de apetite, dor de cabeça, distúrbios do sono, transtornos alimentares, pensamentos destrutivos, etc. (Mastrantonio, 2015).

Vale ressaltar o papel importante da mídia nesse processo. Uma vez que esta apresentará conceitos, valores e noções de certo e errado, além – é claro – de divulgar este tipo de problema. O tornar público e gerar repercussão deposita na imprensa um cargo valorizado no processo de formação individual e social.

Embora a subjetividade individual seja sempre singular, está marcada por espaços, concepções e significados comuns que aproximam as experiências entre seus participantes, criando zonas de inteligibilidade e de comunicação. Tal forma de organização está presente nos indivíduos também sob a forma de ideologias, concepções e/ou cultura, representando momentos históricos, institucionais e relacionais significativos, sendo caracterizados como a subjetividade social.(SANTOS, p. 50, 2009).

ilustra_home

O artigo de Mastrantonio traz a discussão a respeito dos efeitos do bullying em pessoas tímidas. Para a entrevistada as agressões serviram como estímulo base para a escolha da profissão – pedagogia.

“Meu nascimento está vinculado, na parte da minha mãe, à morte do meu avô. Fiquei carregando o peso dessa comparação a vida inteira.” (Julia).  A entrevistada foi caracterizada como uma criança quieta, tímida e matinha relações sociais apenas com familiares.

Há uma classificação de três grupos para pessoas tímidas que se sentem ameaçadas no plano emocional: por pessoas desconhecidas (fator incerto); pessoas autoritárias (por exercerem poder sobre elas) e; pessoas do sexo oposto (possibilitarem relacionamentos mais íntimos).

“(…) quando eu chegava em casa minha mãe perguntava sobre minhas coisas, onde estavam  meus  lápis de cor, e eu respondia que havia emprestado e menino não devolveu. E ela reforçava a necessidade de pedir de volta. E eu sempre tive dificuldade em dizer não. E ficou uma referência que a escola não era tão boa assim”. (Julia)

Zimbardo (2002, p 19) ainda nos traz como referência que a timidez impede-nos de defender nossos direitos e expressar nossas opiniões e valores.

Julia sofreu agressões psicológicas ao longo de seu trajeto escolar. Sua família dava pouca importância no inicio, mas a proporção tomada acabou se mostrando grande demais para ser ignorada e a mãe por vezes tentou intervir. Contudo a postura dos educadores favorecia a manutenção das agressões, que só cessaram quando a vítima trocou de ambiente.

Julia escolheu a área de educação para atuar, pois queria ter ações diferentes de seus professores e ajudar alunos com limitações e mostrar que eles devem ser respeitados. (Mastrantonio, 2015).

No caso apresentado o bullying sofrido na infância e adolescência pôde ser revertido em uma transformação dos comportamentos que, naquele momento, definiam Julia como uma pessoa tímida e estudiosa para outros que acabaram por leva-la a ser professora.

Ciampa (2001) também dizia que identidade é movimento, sugeria a ideia de desenvolvimento inerte, assemelhando-se ao processo de metamorfose. Justamente, identidade é um processo. E para este processo encontram-se múltiplos fatores de interferência, sendo um dos principais a escola. Focar o olhar na educação e seus problemas significa olhar a sociedade através de um espelho, pois tudo o que se pode descrever em no contexto escolar pode-se trazer para nível social de nação ou mesmo de mundo.

Você tem alguma dúvida? Deixe um comentário e nós lhe esclareceremos! Compartilhe também esse texto em suas redes sociais; basta clicar nos botões abaixo! =D

Escrito por: Ândrea Catharina

Referências Bibliográficas

 

“identidade”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/identidade [consultado em 11-11-2015].

MASTRANTONIO; Mônica, Exclusão/inclusão social: um Exclusão/inclusão social: um relato sob o bullying escolar na da identidade de uma pessoa tímida, 2015.

SANTOS; Marcelo Lurdes Dos, O Lugar da escola pública na construção da identidade de alunos e ex-alunos da Vila Nazi, 2009.

CIAMPA, Antônio da Costa, Identidade, 1989.

MOREIRA & MEDEIROS. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre, RS: Artmed, 2007. 224p.

Be the first to comment

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: