Por que ferimos as pessoas?

A maioria de nós gostaria de viver em um mundo de harmonia, tranquilidade e respeito. Sendo assim, nossa tendência deveria estar voltada a essas questões quando se trata das relações interpessoais. Porque, então, ferimos as pessoas?

Seja aquela pessoa do trabalho, escola, universidade, familiares ou o companheiro(a) amoroso(a), muitas vezes nos pegamos ferindo o outro. Em algumas dessas situações, sabemos exatamente o motivo de estarmos fazendo isso, mas, em outras, nos arrependemos ou não sabemos, de fato, o motivo de estarmos agindo assim.

Em uma linguagem comportamental, ferir, machucar, gritar, bater, ofender e tantos outros comportamentos voltados ao outro de forma aversiva, resumem-se em um conceito fundamental: punição.

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Sabe-se que a punição pode ser positiva negativa, e que não se trata aqui de algo bom ou ruim, mas sim da presença – de um estímulo aversivo ao outro – ou da retirada – de um reforçador do outro. Para compreensão mais detalhada e científica de punição, clique nas palavras-chave e será direcionado ao artigo em questão.

Por mais que nós queiramos um mundo melhor, algumas coisas nós não “conseguimos tolerar”, não é mesmo? Alguém que fala alto demais, ou uma pessoa que você julga como falsa, o(a) companheiro(a) ciumento, a opinião política do outro, o latido insistente do cachorro, dentre inúmeros outros exemplos. Você já parou para pensar em qual é a sua reação – comportamento – logo após esses acontecimentos – estímulos – se apresentarem?

Quando o ambiente nos traz algo que nos é ruim – aversivo –, tendemos a tentar eliminar. A forma mais fácil – mas não é a mais eficaz e saudável – que aprendemos durante nossa história de aprendizado é, sem dúvidas, a punição. Há um livro interessante que trata exclusivamente de conceitos e situações coercitivas, o qual explica como o mundo se tornou coercitivo e como isso se reflete em nossa história de aprendizagem, que é o “Coerção e Suas Implicações”, SIDMAN, M.

Com isso, iniciamos as primeiras compreensões sobre o motivo de, então, ferirmos as pessoas. Trata-se de querermos eliminar o comportamento da pessoa/organismo que está nos causando incômodo. Ora, mas isso não era óbvio? Talvez, mas os efeitos dessa relação – contingência – é o que nos interessa.

Você já reparou que, por muitas vezes, aquilo que você puniu voltou a acontecer? Certas vezes, ainda pior. Outras, você se sentiu mal, se arrependeu, viu que não foi “bem assim” que aconteceu, dentre outras situações. Todas elas são chamadas de efeitos colaterais da punição e, por causa deles, o uso da punição não é indicado.

Há vários efeitos colaterais e, neste texto, explicarei alguns. Um deles ocorre quando você acha que tem o controle da situação, mas na realidade o outro não tem contato com sua punição, pois já exerce o contracontrole.

Um exemplo de contracontrole é quando o outro está mentindo para você. Em algum momento você já se questionou o motivo dessa pessoa estar mentindo? Talvez, nesse caso, se ela contasse a verdade, você não gostaria de ouvir e, consequentemente, a feriria – puniria. Outro exemplo clássico é o radar da fiscalização eletrônica. Ele é feito para registrar a alta velocidade a fim de aplicar uma multa, mas as pessoas freiam com certa antecedência e, passando por ele, voltam a acelerar. Esses dois casos são evidências de que, após ser punido, o organismo pode exercer contracontrole sobre a punição, fazendo exatamente o que deseja fazer, mas “mascarando” o comportamento.

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As respostas emocionais também são consideradas como efeito colateral. Elas acontecem tanto em quem é punido – e talvez seja mais evidente –, mas também ocorrem em quem pune. Quando você grita com alguém, por exemplo, você não está sentindo palpitação, tremor, com expressão séria/fechada, balançando as pernas ou várias outras evidências de raiva? Pois é, não é só a pessoa punida que está passando por um efeito colateral, mas quem pune também. E isso leva, muitas vezes, o punidor ao arrependimento.

Arrepender-se de algumas situações é comum, afinal estamos no ambiente para aprendermos as relações com ele, mas isso não deve virar uma rotina. Um exemplo é quando um casal, por exemplo, vive brigando à toa, um punindo o outro. Você já parou para pensar que talvez eles tenham entrado em um esquema de reforçamento? Exemplificando: após cada briga – punição –, um deles se arrepende e eles vivem um momento maravilhoso de reconciliação – reforço. Um deles, ou os dois, podem entender que é necessário brigar para alcançar aquele momento maravilhoso.

Os efeitos colaterais são muitos e, em outra oportunidade, falarei mais sobre eles. O importante aqui é entendermos que a punição funciona, mas seus efeitos podem fugir de nosso controle e, sem dúvidas, ela deve ser evitada. Ora, mas se algo está acontecendo de ruim, eu não posso tentar evitar? Para a Psicologia Comportamental, você deve valorizar – reforçar – aquilo que há de bom – comportamentos desejados.

A saída para uma vida melhor e mais saudável, em questões pessoais, interpessoais e mundiais é, sem dúvidas, o reforçamento positivo. Se você valoriza aquilo que o outro faz de bom, provavelmente ele aumentará esses comportamentos desejados e, como só podemos nos comportar de uma maneira em cada momento, é uma questão de lógica que os comportamentos indesejados ocorrerão em menos, ou quem sabe, em nenhuma frequência.

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Escrito por: Caio Moura

Referência Bibliográfica: MOREIRA & MEDEIROS. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre, RS: Artmed, 2007. 224p.

Readers Comments (2)

  1. o exemplo do radar está errado, ao meu ver. Contracontrole seri anão usar placa no carro, ou algo assim, pois o motorista nem entraria em contato com a contingência. No exemplo dado, o motorista esquivou do radar, e, se repetiu o comportamento utras vezes no futuro, podemos dizer que foi reforçado negativamente por reduzir a velocidade. ele entrou m contato com a contingência neste caso. Boa sorte com o Blog!

    • portalcomportamental 5 de junho de 2017 @ 14:59

      Bom dia! Obrigado pelo comentário.
      O comportamento é reforçado negativamente sim, como você citou, mas isso o torna contracontrole, já que impede o controlador de manter o controle do comportamento.
      Você pode verificar este e outros exemplos na bibliografia base do artigo, Princípios Básicos de Análise do Comportamento, na página 78.
      Obrigado!
      Ass.: Caio Moura.

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